sexta-feira, 24 de junho de 2016

O segredo das tintas

  Regida pelos astros, de personalidade perfeccionista, sempre tive dificuldade em lidar com coisas sem forma, impalpáveis, abstratas. Os sentimentos, é claro que não conseguiram fugir dessa natureza.
   Assim, acostumada com a rotina do objetivo e concreto, deparei-me com meu primeiro obstáculo aos nove anos, quando comecei a pintar. Não consegui, na verdade. Passei duas horas apagando e pintando florzinhas em um guarda-chuva que, na minha concepção, deveriam ser perfeitas.
   Embora eu tenha me desvencilhado dessa mania de perfeição nos dez anos subsequentes, me peguei várias vezes tentando criar uma natureza sem defeitos, harmonizada, quadros livres da presença humana e do seu egoísmo.
   Aos dezenove, porém, tive outro choque de realidade, de identidade. Os pintores costumavam se expressar, denunciar, sentir em seus quadros. O que eu fazia, então? Disseram: "tudo o que é sólido desmancha no ar", será pois, que não tenho nada sólido em mim?
   Me atrevi a ter uma conversa com as tintas, certa de que elas sabiam mais sobre o abstrato do que eu. Me disseram, no entanto, que só cria quem sente, quem se humaniza. Me tiraram da caverna de um jeito doce e mostraram todas as pinceladas de expressão.
Me contaram que a natureza das coisas já era perfeita por si só, que as flores jamais seriam iguais.
   A cada uma eu respirei, vivi, eu já não era mais eu. Talvez o meu estilo seja o meu mundo; A minha expressão, a forma como encaro a vida; Os sentimentos que eu acho que não fazem parte de mim, a minha denúncia.